terça-feira, 21 de julho de 2009

Karl Haushofer e a geopolítica alemã

Fortemente influenciado pelas teses do britânico Haford Mackinder, Karl Haushofer não é um universitário, é sim um militar com características diplomáticas. Ele saberá utilizar a linguagem certa no que diz respeito à questão do futuro e do papel da Alemanha no mundo. Saberá também utilizar todo o descontentamento alemão face às fronteiras impostas no tratado de Versalhes (1919). Também tinha, à sua disposição, uma revista de geopolíticos que acolheu os artigos dos pensadores, dos geógrafos e dos vários políticos europeus. Para Haushofer, a “Geopolítica será e deve ser sempre a consciência geográfica do Estado. A sua finalidade não é outra senão o estatuto das grandes conexões vitais do homem de hoje com o espaço de hoje. A sua finalidade é também a coordenação dos fenómenos, relacionando o Estado com o Espaço”.
Para Haushofer, a geopolítica permite apreender a essência da política, dando uma perspectiva planetária. A geopolítica deve oferecer ao Estado os meios e o quadro intelectual para agir e alterar o curso do conhecimento para permitir à Alemanha pensar no seu futuro. A sua ambição é a de estabelecer a consciência geográfica do Estado.
O objectivo de Haushofer é o estudo das grandes ligações vitais entre o Homem de hoje, no tempo de hoje, e a sua finalidade é a inserção do indivíduo no seu meio natural e a coordenação dos fenómenos, ligando o Estado ao espaço.
Membro do corpo de oficiais, a vocação de Haushofer está na geopolítica. Nasceu no Japão, onde observou o fortalecimento desse país, pressentindo que ia afirmar como vital dos Estados Unidos, na Ásia. Depois regressa a Munique, onde escreveu a sua primeira obra – o Grande Japão – em 1913, no qual esboça a sua grande concepção política “a aliança entre a Alemanha, o Japão e a Rússia, a única susceptível de fazer face às ambições anglo-saxónica”.
A visão política de Haushofer aperfeiçoar-se-á durante a Primeira Guerra Mundial e é nessa altura que ele lê a grande obra de Kjellen – O Estado como Forma de Vida” – (corrente organicista). Haushofer sente-se humilhado pela dureza e pelas consequências do Tratado de Versalhes e começa o combate a favor da defesa dos interesses alemães e da “germanidade” (esta comunidade civilizacional na qual todos os alemães se devem encontrar) e para a promoção do labensraum, onde os alemães podem atingir em pleno as suas capacidades. Restaurar o poder alemão significava juntar todos os povos de descendência alemã sob uma autoridade política única e num espaço territorial suficiente.
A finalidade da geopolítica no pensamento de Haushofer vai ser restauração da grandeza alemã. “As fronteiras obrigatórias impostas por Versalhes devem ser redesenhadas a fim de voltar a dar á Alemanha a soberania sobre todos os territórios alemães, dispersos por culpa dos aliados e também da fraqueza dos líderes alemães”. De facto, a geopolítica aparece como um meio ao serviço da luta pelo Espaço Vital.
A geopolítica alemã é o prolongamento natural da geografia política de Ratzel e de Kjellen. No que diz respeito à mítica das fronteiras, Haushofer concedeu-lhe vários conceitos, nomeadamente o de Lage e de Raum, para os integrar construção intelectual mais vasta que postula a existência de uma criação orgânica entre o território e a população que aí habita. Deduz daí uma lei da fronteira e do Espaço Vital; “os Estados crescem até atingirem uma superfície que satisfaça as suas necessidades, até atingirem o seu Espaço Vital. Quer dizer, uma área geográfica delimitada por fronteiras naturais ou artificiais, no interior das quais uma população tenha os meios que lhe permita sobreviver”. É pois normal que as fronteiras não sejam estéticas e que evoluam em função da dinâmica e da ambição dos povos e das suas necessidades de espaço. As fronteiras não são mais do que traços temporários. Na sua obra, Fronteiras e o Significado Político, publicada em 1927, Haushofer entende que as fronteiras não são, em caso algum, linhas de divisão política. Mas sim, representam um combate para a existência num mundo finito.
Se os defensores da geopolítica alemã partilham o determinismo geográfico, que era muito caro a Ratzel que vê no espaço territorial e na sua posição a fonte principal do poder. Alguns acrescentam a isso, a partir do surgimento da corrente nacional-socialistas na Alemanha, a exaltação do poder das forças político-sociais que permitem, segundo eles, á colectividade humana libertar-se dos elos que os ligam ao seu meio.
O vector da influência das teses geopolíticas na Alemanha vai ser a revista Geopolítica – onde vincula as teses geopolíticas alemãs -, fundada por Haushofer. “A Alemanha deve ser uma grande potência, o Estado pivot da Europa”. “A condição indispensável para a Alemanha é a conquista do seu espaço, à custa de todos”. “A Alemanha alcançará esse objectivo se as fronteiras não permanecerem fixas”. “Para assegurar a subsistência da população alemã, a solução passa pela redefinição dos traços territoriais, pela alteração da ordem do pós-Guerra e pela integração de todas as populações germânicas num vasto conjunto que Sá bastará a si próprio”, daí a rejeição pelos defensores da geopolítica alemã da organização da Sociedade Internacional, segundo o modelo da Sociedade das Nações.
Para Haushofer, o Estado vive e tem vocação para o seu espaço aumentar. Os problemas, com os quais se confrontava a Alemanha, resolver-se-iam fora do campo clássico da via diplomática. Na sua preparação e na sua conclusão, a geopolítica permite melhor apreciar a relação de forças e adquirir uma visão mais global dos desafios e das situações respectivas.
Segundo Haushofer, a falta de visão geopolítica explica, em parte, a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. O império alemão não pode arbitrar entre as suas aspirações continentais e a sua ambição naval, e não soube estabelecer alianças que lhe permitiriam ter assegurado a vitória. A questão das alianças é fundamental para a geopolítica alemã. Na procura do seu espaço vital, a Alemanha deve apoiar-se nas potências suas amigas, como o Japão – potência asiática capaz de contrariar as potências marítimas anglo-saxónicas. A anexão alemã a Checoslováquia e o Anschaluss, da Áustria justificam-se plenamente, segundo Haushofer. O objectivo, segundo Haushofer, não é a guerra, mas sim a emergência na cena internacional de um número limitado de Estados, entre os quais a Alemanha, controlando cada um uma zona de influência, equilibrando-se então as ambições através do equilíbrio da força. Após derrotar a França e neutralizar a Itália, a Alemanha dominava a Europa, escreve Haushofer: “isto seria natural para a Alemanha, pois a Europa, sobretudo a de Leste, representa a esfera de influência natural da expansão alemã”.
Para Haushofer, o continente africano também devia estar na esfera de influência alemã. O Japão impunha a sua lei na Ásia oriental, enquanto os Estados Unidos teriam vocação para controlar a América do Norte, Central e Sul. O futuro da Rússia dependia da sua própria atitude. Se Moscovo renunciasse a sua ideologia, toda a Ásia do Sul, designadamente a Índia, poderia abrir-se à influência. Caso contrário, a Alemanha seria obrigada a aniquilar a Rússia e dividi-la em muitos Estados nacionais satélites da Alemanha. Num tal cenário, o Japão ficaria com a Índia, enquanto a Alemanha controlava a Rússia. Como é evidente, a realização deste projecto passaria pela guerra.
Devido a tudo isso que foi dito anteriormente, é que se coloca a questão da influência das teses de Haushofer no regime Nazi e a sua colaboração no regime expansionista. Muitos especialistas, sobretudo no âmbito da geopolítica e ciência política, defendem a ideia que Haushofer inspirou Hitler, no que concerne à sua obra Mein Kamph, designadamente as passagens ligadas ao espaço vital.

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